“Alguém tem de fazê-lo” de FJ Sanz, um relato de fantasia sombria

Tempo de leitura: 11 minutos.
Comprimento de impressão: 7 páginas.

Um funesto sentimento de aprensão acompanhou ao movimento da porta ao se abrir.

O dia acordou com aquele céu cinzo que não pressagiava nada de bom. Macilento, o sol apenas se percebia atrás do manto denso das nuves, claudicando sub o frio impulso do inverno iminente.

Pronto chegariam as primeiras nevadas. E, com elas, o terror.

A presança do forasteiro assim o vaticinava, recebedo como acontecia cada ano com resentimento e alívio a partes iguais. Duro e magro com um junco, suas fações eram afiadas, a pele da sua cara tornada couro pela exposição contínua aos elementos. Sua boca, apenas um corte num rosto marcado pela filigrana prateada de inúmeras cicatrizes. Cicatrizes de quê? De facas, garras? Mas eram seus olhos escuros os que davam a sua pessoa uma auréola de perigosa incerteça.

Sobre seu ombro sobressaía a cruz duma espada, que nenhum dos presentes na estalagem lamentava ter visto nunca desembainhar.

O enigmático indivíduo naõ quebrou o silencio que de repente reinava na sala. Com andar seguro, tomou assento numa mesa do rincão mais afastado, procurando o refúgio da soledade.

Pouco a pouco os aldeanos voltaram sua atenção a seus próprios assuntos. No entanto, não poucas olhadas nervosas viravam-se para aquela mesa solitária, conscientemente de que aquela noite criaturas de pesadelo assaltariam seus sonhos.

Layr era muito nova a primeira vez que viu o estrangeiro.

Ignorando as advertências assustadas da sua mãe, escapara de seu quarto e correra escada abaixo. Queria contemplar com os seus próprios olhos o forasteiro do que nunca se falava sem persignar-se antes.

Sua primeira impressão fora a de estar observando um habitante das florestas.

Nos contos eram mencionados continuamente. Seres mágicos que pertenciam ao mundo das fadas, que rezavam a divindades antigas e dedicavam as suas vidas à defesa das terras sagradas de perigos escuros. Enfiado em couro e revestido com os tons pálidos dos bosques nortenhos, o cabelho rebelde caindo sobre seus ombros, para a jovem Layr ficara patente, desde o primeiro momento, que aquele homem silencioso fora seu abnegado protetor.

Dez anos depois, nem as novas cicatrizes, os cabelos brancos na sua cabeça ou seu caminhar encorvado, lograram manchar aquela marca.

Ante o espanto da sua mãe, reclamou a jarra de cerveja de suas maõs nervosas e partiu em direção à mesa. Não ia esperar mais um ano.

Sem se preocupar em levantar a cabeça, o forasteiro aceitou a bebida que lhe era oferecida. Tão perto, Layr pôde apreciar sua pele prejudicada e por um instante acobardou-se.

Mas apenas por um instante.

— P-posso lhe trazer uma tigela de sopa do guisado do meio-dia — pronunciou, para sobressalto de todos. Embora escolheu ignorá-los — Quente?

— Seria bom.

Que sua voz não soasse áspera, conforme com a sua pessoa agreste, não foi motivo de surpresa. Ao contrário, sim o foi que o indivíduo elegesse aquel momento para quebrar seu silêncio.

Nunca tinha acontecido antes.

Animada por aquele triunfo inesperado, a jovem se apressou a visitar a cozinha e voltou com uma tigala de sopa. Fumegava, tal como ela tinha prometido.

Layr ficou de pé, expetante, entanto o forasteiro apreendia o recipiente e dava boa conta de seu conteúdo. Quis avisá-lo que estava quase fervendo, mas ela se deteve, aliviada, ao verificar que o estrangeiro gostaba dela.

— Deseja que enche a tigela novamente? — ofereceu.

— Assim está bem.

E então ela soube que, o momento que esperara desde fazia muito tempo, tinha chegado. Não quis pensar em futuras oportunidades. Seria aqui e agora.

Resmungos barulhentos e gemidos afogados romperam a um tempo quando a jovem, tentando arranjar coragem, reclamou uma cadeira.

E sentou-se à mesa.

No entanto, a audácia daquela ação não pareceu incomodar o forasteiro.

— Posso sentar? — perguntou, mas se arrependeu imediatamente. — Sou boba, se já me sentei. O que quero dizer é se não se importa que me sente aqui. À mesa. Consigo.

— Já não há sopa. Sómente posso compartilhar a cerveja.

— Quer que eu traga mais sopa? — exclamou, envergonhada, e saltou como uma mola. Depois, compreendeu o verdadeiro sentido encerrado nas palavras do estrangeiro. Com deliberada delicadeza, sentou-se de novo.

— Eu… não deseio tomar nada, obrigada. Eu… — vacilou primeiramente, logo se encorajou. — Eu… o que quero é saber! Saber sobre si! Por que vem cada ano! O que é o que acontece aí fora com a primeira nevada! Eu…!

A efusividade da jovem veio abaixo assim que foi consciênte da sua tagarelice confusa. Também adverteu as olhadas horrorizadas dos presentes na estalagem.

— Eu… eu imploro, desculpe-me. Não lhe vou mais incomodar.

Envergonhada pela sua atitude, Layr dispôs-se a abandonar seu lugar na mesa.

— Não tens de ir.

Tinha ouvido bem? Ela levantou a cabeça, devagar, até observar o estrangeiro. Em seu áspero semblante não achou qualquer sinal de reprovação.

— Tens valor. Em muitos anos, és a primeira pessoa que fala comigo.

— Nossa! Sim? Eu… sinto muito. De verdade que não somos assim. Neste povo todos somos pessoas amáveis e generosas. O que acontece é…

Ela não soube como continuar.

— Que me têm medo.

— Sim! Não! — Layr tinha a sensação frustrante de não parar de estragar tudo. “Por que soy tão desastrada?” — Não lhe têm medo. O que realmente temem é a causa que o traz aqui.

— E que causa é essa?

“Isso gostaria de averiguar!”, ela quis exclamar, embora logrou controlar sua língua a tempo.

— Isso é o pior — se recompôs, — que não sabem.

— Sabem que durante a primeira noite de inverno passam… coisas — disse ela. — Ouvem-se ruídos estranhos e ninguém consegue dormir bem. Na manhã seguinte tudo passou. Então mostra feridas recentes, é atendido e assim que pôe, parte. E não sabemos mais de si até o seguinte ano. Por favor — se inclinou sobre a mesa, como em segredo, — imploro, conte-me. Diga-me contra o que luta. Porque carrega essa espada por alguma ração. E, exceto sangue, ninguém alguma vez encontrou os restos de besta ou criatura.

— Não querem sabê-lo.

A jovem aguardou, mas o forasteiro não tinha intenção de dizer mais.

— É… algo secreto? Um juramento? Tem algo a ver com magia antiga e promessas aos deuses?

— Ao final, tudo sempre tem algo a ver com deuses, magia e promessas — declarou com um suspiro de amargura.

— Eu… não desejo intrometer-me. Não quero que quebre nenhum voto sagrado. Só uma pergunta, uma última pergunta — suplicou juntando as palmas das mãos, — e juro deixar-lhe em paz.

Esperou para ver se o forasteiro aceitava seu pedido. Com gesto cansado, ele assentiu.

— Sempre volta ferido e ninguêm daquí agradece-vos. Por que o faz?

O estrangeiro não respondiu imediatamente. Levou o seu tempo, como se valorasse o significado daquela, aparentemente, pergunta simples. Quando chegou a uma conclusão, falou.

— Alguém tem de fazê-lo.

Sim dúvida, foi uma noite agitada, cheia de sombras escorregadias e uivos tenebrosos.

Até o amanecer, não se destravaram as portas das casas. E, ainda assim, aqueles que abandonaram o refúgio das suas casas, fizaram-no com uma profunda preocupação no fundo do seu estómago.

Layr, acordada desde bem cedo, aguardou roendo as unhas até que a mãe dela ficou sem razões para mantêr a estalagem fechada.

Uma vez livre no exterior, correu até a casa do médico da aldeia; o primeiro lugar ao que seguramente acudiria o forasteiro depois da luta noturna.

Ela achou o bom homem bem acordado, preparando as tisanas em previsão do que estava para vir. As ferramentas do seu ofício aguardavan cuidadosamente colocadas sobre o limpo tecido de linho da mesa.

Mas naquela cena faltava algo: seu protagonista.

— Ainda não apareceu? — perguntou ela, sem se preocupar em dizer de quem falaba.

— Não, Layr.

— Mas é tarde — insistiou, confusa. — Já há muito tempo que amanheceu.

— Talvez, nesta ocasão saiu de lá bem e não precisa de cuidados — tratou de acalmá-la.

Mas a jovem tinha a sensação de que algo estava errado. Um mal pressentimento a levou a correr para a floresta.

O ladrar dos cães indicou o caminho.

Vários homens, todos conhecidos e lutando com seus sabujos nervosos, rodeavam os restos ensanguentados do forasteiro. Quando perceberam a chegadada dela, tentaram protegê-la daquela terrível visão.

Mas já era tarde.

O pior do combate devia ter ocorrido lá, já que a terra estava tingida de vermelho em vários passos ao redor.

Ele o fiz. Manteve seu sagrado juramento até o final, mesmo ao précio da própria vida.

Os olhos de Layr se encheram de lágrimas ao lembrar o rosto curtido dele, o tom de resignação ao pronunciar suas últimas palavras.

Palavras a ela dirigidas, a única do lugar que se ofereceu para conversar com o estrangeiro.

Era injusto, soluçó.

No entanto, um reflexo casual reclamou a atenção dela.

Lá, não muito longe do cadáver, descobriu algo metálico entre a folhada. Soube o que era antes de agachar-se.

— O que fazes? — gritaram os aldeanos.

Mas não lhes quis escutar.

— Larga essa espada!

Com a arma aferrada entre as pequenas mãos, umas palavras cheias de inexorável significado brotaram de seus lábios.

— Alguém tem de fazê-lo.

Sinopse

A escuridade regresa; alguém terá de enfrentá-la. “Alguém tem de fazê-lo” é um tenebroso relato de fantasia sombria. Escrito por FJ Sanz, autor de ficcão.


0 comentarios

Deja una respuesta

Tu dirección de correo electrónico no será publicada. Los campos obligatorios están marcados con *

Este sitio usa Akismet para reducir el spam. Aprende cómo se procesan los datos de tus comentarios.

Este sitio web utiliza cookies para que usted tenga la mejor experiencia de usuario. Si continúa navegando está dando su consentimiento para la aceptación de las mencionadas cookies y la aceptación de nuestra política de cookies, pinche el enlace para mayor información.plugin cookies

ACEPTAR
Aviso de cookies