“Que mereça a pena” de FJ Sanz, um relato de fantasia épica que vai fazer-te apaixonar

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Alguma vez contei-vos que estive apaixonado? E que ela morreu?

Vá lá, não façam essas caras! Não é uma história triste, longe disso! Então, tragam-me outro jarro de vinho e eu vou contar-vos o que aconteceu!

“Vamos lá, vamos lá. Com cuidado…”

Teve extremo cuidado para levantar o pé e deslizá-lo apenas alguns dedos para longe do mecanismo que ativava a armadilha. Não sabia o que isso desencadeava, mas também não precisava saber. Procurava alimentar a sua insaciável curiosidade resolvendo mistérios de uma condição menos perigosa.

Estendeu a passada e deixou para trás a mola disfarçada de outra pedra comum, das incontáveis que compunham o chão. O sorriso evaporou-se instantaneamente dos lábios assim que um leve assobio soou nos seus ouvidos. Caiu e rolou pelo chão rochoso quando uma lança emergiu de repente à procura do seu corpo. Quase tão alta como ele, a lança assim que atingiu o limite da sua corrida letal, começou a recuar até o recesso escondido.

Ainda a balançar os dedos dos pés, Rael teve de reconhecer que esteve perto.

Muito perto.

No entanto, o caçador de tesouros só precisou de alguns momentos para recuperar o seu equilíbrio natural e olhar para o próximo obstáculo. Na sua profissão, a morte era uma companheira fiel a ser respeitada; mas nunca temida.

Ele repetiu pela enésima vez a tarefa de distribuir o peso de cada ferramenta ajustada à sua fisionomia felina e verificar se cada uma delas estar no lugar certo. Sem querer, acariciou o punho das suas adagas e abriu e fechou os punhos várias vezes sob as ásperas luvas de couro. Começava a ficar muito frio lá dentro.

Tinha deixado para trás as paredes terrosas da caverna. O chão de pedra que estava agora a pisar era um bom sinal de que estava no caminho certo. A presença das armadilhas confirmava-o. Não sabia o que ia encontrar no final do túnel, mas a possibilidade de descobrir um grande tesouro valia bem o risco.

Sempre em silêncio, espiou na curva da galeria para verificar se tudo estava em ordem. Sem perigo à vista, virou a curva e… parou no meio do caminho ao notar a sombra ténue de uma corda fina e subtil nos tornozelos. Tão fácil. Graças aos deuses, a luz filtrada através das faixas de quartzo no teto dava-lhe clareza suficiente para avançar sem depender da traiçoeira chama de uma tocha. Além disso, preferia ter as duas mãos livres para o que quer que pudesse acontecer.

Com uma economia de movimento surpreendente, Rael preparava-se para evitar o gatilho quando uma figura espectral emergiu da parede. A mão estendida procurou o peito do aventureiro.

Rael quis recuar para se proteger do temido contacto, mas lembrou-se da existência da maldita corda e teve de saltar e virar no ar para evitar ambas as ameaças. Caiu agachado e empunhando as duas facas.

O fantasma permaneceu no lugar onde tinha aparecido, observando-o, aparentemente sem intenção de aproximar-se. Por sua vez, Rael também não abandonou a sua atitude defensiva, não tendo a certeza de que as armas de metal vulgar fossem de grande ajuda se essa manifestação etérea decidir atacar. Mas nada aconteceu e após alguns momentos Rael começou a sentir-se ridículo, paralisado naquela desconfortável posição. Sem perder de vista o fantasma, tentou ficar de pé. Devagar, muito devagar. Embora não se movia, a figura translúcida do fantasma oscilava por causa do impulso de umas correntes que o aventureiro era incapaz de apreciar no ar viciado da caverna.

— Não sei quanto a ti, mas eu tenho coisas melhores a fazer do que passar o resto da minha vida aqui — protestou, farto do absurdo da situação.

Nunca passou pela sua cabeça que a queixa ia ser atendida; e muito menos respondida.

— Deveria ter ativado a armadilha.

A voz soou estranha para os ouvidos do aventureiro, como um eco longe e, ao mesmo tempo, terrivelmente perto. Um estremecimento subiu-lhe pela espinha.

— Se estou a entender bem — encorajado, Rael disse —, pretendias atirar-me para a armadilha? Apareceste-me assim com a ideia de eu assustar-me e tropeçar com a corda?

— É o que deveria ter acontecido.

— Bem, sinto muito, sr. Fantasma, mas não tenho intenção de terminar os meus dias nesta maldita caverna.

Dito isto, Rael embainhou os punhais, enfiou os polegares no cinto e caminhou pelo corredor, bem disposto a continuar o caminho.

Apesar da sua atitude despreocupada, úteis ou não, as mãos dele nunca se afastaram muito das lâminas afiadas.

— Aproxime-se e morra — proclamou o espírito.

— Se pudesses me matar, não esperarias que eu aproximar — respondeu sem parar. — Nem terias tentado usar uma armadilha para fazer o trabalho sujo. Se realmente pudesses me matar, já o terias feito.

E, com os nervos à flor da pele, Rael atravessou o espectro.

Que desilusão.

Nenhuma mão ossuda e espectral agarrou o coração dele. Nem foi como se a sua alma tivesse sido arrancada do seu corpo. Nada pegajoso aderiu à pele, nem sentiu frio nenhum. Ele não sentiu… nada.

Foi uma experiência verdadeiramente decepcionante.

— Há mais armadilhas. Não vai contorná-las todas — insistiu o espectro, teimoso sobre essa terrível ideia.

— Puxa! Pois, muito obrigado pelo teu aviso — disse Rael sem olhar para trás. — Vou manter isso em mente.

À medida que aprofundava na jornada, a intervenção das mãos humanas na construção daquela rede de túneis e passagens tornou-se mais do que evidente. Gravuras antigas nas paredes, pontes desmoronadas, degraus entalhados na rocha, fragmentos de urnas, estátuas sem forma, nichos vazios… E, acima de tudo, um frio cada vez mais intenso.

A respiração escapava na forma de pequenas nuvens através do lenço preto que cobria a boca de Rael, enquanto os olhos, expostos àquela atmosfera inclemente, não paravam de lacrimejar.

— Merece a pena?

Embora o reconheceu de imediato, o som da voz do próprio submundo fez os cabelos da nuca dele se arrepiarem.

Olhou e olhou em volta, procurando a temida armadilha que acabaria com a vida dele. Ainda não estando completamente seguro, finalmente voltou a atenção para o recém-chegado.

— O que é que merece a pena?

—Arriscar a vida assim.

Quando Rael leu o pergaminho empoeirado há semanas e entendeu que escondidas dentro das linhas apertadas estavam as pistas de um magnífico achado, nunca imaginou que acabaria falando com um fantasma sobre os riscos relativos à profissão de caçador de tesouros.

— Ganhar ouro suficiente para viver como um rei por muito tempo? Certamente que a merece.

Rael retomou a marcha, desconfiado ainda do que poderia estar escondido no chão e nas paredes.

Sim notou nesta ocasião os traços de uma malha na figura nebulosa do fantasma, talvez até um arco que lhe sobressaía das costas. O rosto, na melhor das hipóteses difuso, estava escondido pelas guardas de um capacete redondo. Deixou-o para trás ao passar, embora só um momento depois Rael o descobriu novamente mais adiante no corredor. Quando o ultrapassou outra vez, o eco da voz do espectro ecoou atrás dele.

— Apenas é um ladrão vulgar.

— Desculpa? — Rael parou e virou-se para enfrentar a aparição. Esse insulto tinha magoado o seu orgulho.

— Um ladrão do mais baixa laia — insistiu o fantasma — pois rouba aqueles que não podem defender-se. Os mortos.

— Vamos deixar claro uma coisa — protestou, levantando um dedo que quis pressionar contra o peito do caluniador. Mas o atravessou e não teve mais efeito do que fazê-lo parecer um idiota. — Eu não roubo. Arrisco meu pescoço para recuperar objectos abandonados e esquecidos.

— Está aqui, pronto para se apropriar de qualquer coisa de valor, não está?

Rael abriu os braços, tentando abranger a enormidade da caverna.

— Quem se importa com o que posso tirar deste lugar congelado?

— Importa aos mortos. Àqueles de nós que juramos proteger os seus segredos. Àqueles que, mesmo na morte, não esquecemos o nosso juramento.

O peso dessas palavras era quase tangível. Embora não o suficiente para convencer o aventureiro pragmático

— Bem, temo-me, meu amigo, que mesmo nessa promessa, tenhas sido deixado sozinho — Rael incitou com intenção. — E para já de entreter. Acho que ainda há um longo caminho a percorrer.

Ele não estava errado.

Sentia as horas passarem, caminhando por aquela caverna sem mais barulho do que o assobio do vento gelado e os próprios passos. Até o espectro, que de vez em quando podia ver pelo canto do olho, tinha decidido fechar-se num silêncio sombrio.

Seria possível ofender um fantasma? E o que era ainda mais absurdo: qual era a razão de preocupar-se com tal possibilidade?

Passar tanto tempo sozinho devia de estar a subir-lhe à cabeça. Não estava a considerar a mera possibilidade de desculpar-se?

“Rael, meu amigo, o que precisas é encontrar uma boa mulher”, disse-se. “Então terás muitas oportunidades de pedir desculpa!”

“Uh-oh”.

O clique tinha sido tão subtil quanto discreto, absorvido como estava, perdido no pensamento. Bastou um vislumbre de movimento para que os músculos das suas pernas reagirem por puro instinto e, com os braços para frente, ele rolar no chão para evitar o aríete que do teto se precipitou com a macabra intenção de transformá-lo em polpa. Uma vez terminado o balanço, o mecanismo forçou o pesado tronco a retornar ao seu esconderijo, como um paciente predador à espera de novas presas.

Já de pé, não precisou olhar para longe até descobrir o espectro, de braços cruzados e mostrando uma atitude insatisfeita.

— Gostas do espectáculo? — o caçador recriminou.

— Tinha confiança que desta vez ia funcionar — respondeu o fantasma.

E pensar que ele esteve prestes a pedir desculpas àquele desgraçado ressequido, cujo único interesse era vê-lo morrer!

Rael cuspiu aos pés da aparição.

— Não serão os meus ossos que vão apodrecer aqui em baixo.

— Nada apodrece neste lugar — declarou o espectro, sem acusar o veneno nas palavras do aventureiro.

E não disse mais nada.

Só depois de algum tempo Rael entendeu o significado daquela afirmação enigmática.

Também compreendeu que não tinha sido o primeiro a encontrar o paradeiro daquelas ruínas antigas.

Num estreitamento do corredor, um infeliz ficava morto, empalado nas três folhas da sinistra armadilha que emergia do piso. As lâminas saltavam-lhe das costas, vermelhas do sangue do intruso. Gotas congeladas como estalactites globulares que nunca cairiam no chão.

Pelas roupas e barba asselvajada, ele devia de ser um homem nórdico, embora Rael não pudesse imaginar há quantos anos ele tinha sido enforcado lá. Ao levantar a cabeça, viu os olhos dele cristalizados e a boca aberta, petrificada num eterno grito de dor. Além disso, Rael podia muito bem acreditar que ele ainda estava vivo.

— Morreste aqui sozinho? — perguntou. — Eras bom, chegaste longe. Mas não suficientemente longe. Suponho que devo agradecer-te por teres desativado esta armadilha.

Aos pés do corpo, Rael descobriu algo que sobressaía, algo que parecia uma pedra solta, mas que na verdade era o gatilho que fazia a mola saltar.

“Chuta-se uma pedra e três lâminas furiosas saem ao teu encontro. Muito engenhoso.”

— Que pena que não possas voltar a montar esta engenhoca para mim, certo?

— Haverá mais.

— Tenho certeza que sim — disse Rael. — O que fizeste? Adicionaste um entalhe ao teu arco depois de assustá-lo para se empalar? Ou apenas ficaste lá parado a vê-lo cair na armadilha? Gostaste de vê-lo agonizar até a morte?

O espectro demorou a responder, mas finalmente fez.

— A minha missão é proteger este lugar de ladrões e profanadores. — A voz do além-túmulo, soou ainda mais distante. — Quanto ele. Quanto você.

— Visto que apenas respondes às perguntas que mais te convêm, vamos ver como sais desta: há quanto tempo é que esse nórdico leva ai morto?

— Os dragões voam sobre o céu na sua época?

— Dragões? — repetiu, confuso. Rael não esperava uma resposta assim. — Só em livros antigos e histórias de vendedores ambulantes. Porque perguntas isso?

— Porque na dele, sim.

— Está bem. Começámos com o pé errado.

Havia uma grande diferença entre caminhar por passagens eternas cheias de perigos, curvas ameaçadoras, pontes semicolcheias, rampas e encostas, e fazer a mesma coisa com alguém enfiado no rabo, sem outra intenção que olhar por cima do ombro com um profundo rancor.

Depois de revistar alguns restos abandonados e não encontrar nada digno de menção, ele decidiu pôr um fim a essa situação irritante.

Apesar do frio, o aventureiro tirou a lenço da boca para expressar-se melhor.

— Ri do teu juramento e tu tentaste matar-me — disse Rael — e eu não quero saber quem começou tudo ou quem é o maior culpado. Ambos sabemos porque estamos aqui, e nenhum de nós gosta das intenções do outro. Óptimo. Mas é assim mesmo, e não temos escolha, só aceitá-lo até um de nós conseguir o que quiser, não é?

— O seu argumento é retorcido — raciocinou o espectro, cuja figura estava a tornar-se cada vez mais nítida — mas isso não deixa de ser verdade.

— Bom. Isto parece-me importante, uma aproximação de posições — agradeceu o aventureiro. — Porque, acredites ou não, sou considerado um bom cara. Eu tento dar-me bem com as pessoas e pagar uma rodada quando as circunstâncias o permitem.

— Após a profanação salvagem de um túmulo?

— Não, espera, isso não vai levar-nos a nada — Rael negou com a cabeça. — Se voltarmos a isso, vamos começar as hostilidades novamente. Eu poderia dizer de ti ah, é um fantasma poeirento de carne podre e ossos carcomidos, condenado a vaguear por estes corredores congelados do diabo com o único propósito de assistir à agonia dos pobres coitados que terminam com os seus rabos aqui! Devo dizê-lo? Pois não! Eu calo a boca, rango os dentes e enfio as minhas opiniões bem dentro! Por isso encorajo-te a parar de falar de profanações, roubos e disparates. Está bem? Podes tentar? Se ao menos um pouco, para evitar que esta raiva nociva cresça entre nós…

O espectro permaneceu imperturbável, até que finalmente pronunciou-se.

— Penso que eu poderia, sim.

— Tá bom! — celebrou o jovem. — Se com boa vontade não há nada que não possa ser consertado. Pois bem, chegados a este ponto, o próximo passo é inevitável. — Estendeu a mão enluvada, embora viu imediatamente o absurdo do gesto e a retirou. — O meu nome é Rael. E o teu?

— Katria.

— Katria? Não me… Sério? Katria? Por todos os céus! Ahah! Katria… Na minha vida, e digo isto, na minha vida, de todas as mulheres que quiseram matar-me, tu és a primeira mulher morta a tentar! Ahah! E não quero ofender, está bem? Não penses que estou a brincar com a tua morte. É só que… Raios, Katria!

O fantasma, ou a fantasma, mais apropriado neste caso, suportou estoicamente a explosão de hilaridade do buscador.

— Já acabou? — perguntou ela, obviamente chateada.

— Pelo túmulo do meu pai, sim. — Rael calmou-se. — Mas entende a minha surpresa, eu nunca suspeitei ou imaginei tal coisa.

— E porque está surpreendido? É porque foi escolhida uma guardiã para custodiar este lugar? Ou porque o meu espírito pertence a uma mulher?

— Suponho que pelas duas coisas — respondeu ele, embora mudou imediatamente de ideia. — Estou a enganar-me, a última. Já conheci mulheres milicianas, guerreiras e combatentes de sangue puro suficientes para ousar depreciar as habilidades de qualquer mulher. Mas quando penso em espectros vingativos ancorados em ruínas mofadas, só consigo imaginar esqueletos maltratados, fantasmas masculinos cadavéricos e harpias femininas estridentes. E estes não correspondem nada a… como tu és, diabos.

Ele tinha sido assim tão cego? Ou algo tinha mudado? Porque bastava prestar um pouco de atenção para perceber que aquela armadura leve não podia esconder as curvas do corpo de uma mulher. Um que não era pouco atraente, deixando de lado o simples facto de brilhar na escuridade com uma luz azulada e de poder distinguir, através dele, os detalhes do mosaico gravado na parede por detrás. Com o arco cruzado nas costas, as adagas embainhadas na altura das ancas também não ficavam nela muito mal.

Essa resposta não pareceu convencer o fantasma de Katria, que num gesto curioso — curioso por ela ser um espírito — colocou as suas mãos na cintura e inclinou a cabeça para um lado.

Como era que ele não tinha percebido antes que era uma mulher…

— Como é que eu sou? — perguntou ela, pedindo uma explicação melhor.

— Muito guardiã, sem dúvida! — Rael quis sair do atoleiro. — Com o teu arco e flechas, embainhada na tua armadura rija. Nada a ver com esqueletos, almas malditas e bruxas vociferantes. Um deleite para os olhos… em comparação! Quero dizer.

Katria escolheu manter a sua opinião para si própia e permaneceu em silêncio.

Rael, por sua vez, decidiu que já tinha falado demais.

— Suponho que vais fazê-lo de qualquer maneira — disse o aventureiro — mas vais juntar-te a mim na minha busca? O caminho será muito mais agradável se continuarmos a falar e contar mais coisas sobre ti…

— E estás a dizer-me que isto foi a capital de um império?

Sem dúvida a viagem tinha-se tornado muito mais divertida a partir do momento em que as hostilidades foram relegadas para segundo plano. Era verdade que um não tinha desistido das suas pretensões de resgatar os tesouros enterrados naquelas ruínas, enquanto a outra esperava zelosamente para vê-lo morrer por causa daquelas pretensões. Mas eles tinham conseguido garantir que tais discrepâncias, detalhes insignificantes como a vida e a morte, não constituíssem um obstáculo intransponível para uma conversa agradável.

— Não realmente — corrigiu Katria. — Estamos no subsolo da própria cidade, os subterrâneos que outrora ligavam os principais edifícios da urbe, agora todos enterrados sob gelo e rocha.

— Bem, nem todos eles.

O sorriso de Rael por causa da sua ocorrência intempestiva não foi recíproco. Ele fez uma careta e continuou a estudar os relevos do chão.

— Túneis sem fim, armadilhas por todo o lado. O vosso rei estava mais preocupado em guardar os seus tesouros do que em proteger os cidadãos.

— Isso não é verdade! — Foi a primeira vez que Rael a ouviu levantar a voz além dos seus sussurros aveludados. Uma verdadeira surpresa: ela tinha uma voz bonita. — O Imperador Hujal era bem amado pelo povo. Estava preocupado com o nosso bem-estar. E se ele mandou perfurar estes corredores, foi para salvar a cidade inteira em caso de desastre. A localização dos mecanismos de segurança era clara; para aqueles que sabiam ler os sinais.

O silêncio repentino que seguiu às suas palavras, assim como o olhar hierático no seu rosto, alertaram o buscador.

Ele entendeu o motivo, embora não gostasse de reconhecê-lo. O seu pé direito estava firmemente plantado sobre uma mola. Que nada tinha aparentemente acontecido, não mudou o facto de que, como um desajeitado e novato, ele tinha pisado numa armadilha.

— Agora o quê? — perguntou com horror.

— Agora nada — respondeu o fantasma, retomando a marcha. — Falhou.

Rael não tinha tanta certeza.

— É suposto eu acreditar em ti? — questionou zangado. — Quem diz que assim que eu levantar o pé não vou ser atingido por uma chuva de pedras, ou atravessado por mil estacas?

— Olhe à direita.

O aventureiro olhou para lá, o seu coração num punho. Uma parede. Um desenho entalhado na pedra a golpes de cinzel. Um escudo heráldico, ou algo semelhante. Gelo. Nada digno de interesse. Exceto, talvez…

— Sim — confirmou ela —, cada ponto ao longo do relevo é um buraco desde onde dardos afiados deviam ter sido disparados. O gelo bloqueou as suas engrenagens, tornando o mecanismo inútil. Vamos continuar. Esperemos que a próxima ainda funcione.

Fazendo o símbolo dos chifres com os dedos para afugentar os maus presságios, Rael confiou-se aos deuses e deu um passo em frente, atrás da radiante esteira azul de Katria.

Ele surpreendia-se ao descobrir gestos e reações tão humanos — melhor dito, tão típicos dos vivos — no espírito da guardiã.

Apesar do eco de além-túmulo que acompanhava cada uma das suas palavras, Rael tinha começado a apreciar as diferentes inflexões na voz de Katria, ao sentir-se nostálgica, zangada, firme ou animada. Como ela baixava o tom ao responder com desconfiança às perguntas dele sobre os segredos da cidade.

E o que era mais importante para a sua sobrevivência: a forma como ela mantinha silêncios curtos e a sua figura etérea ficava tensa por um momento fugaz cada vez que caminhava perto de uma armadilha.

Além disso, ela era muito faladora ao explicar o funcionamento e a finalidade de cada mecanismo que Rael contornava e conseguia identificar. Embora muito engenhosos, esses dispositivos letais acabaram por ser repetidos uma ou duas vezes e a familiarização com a sua natureza intrincada facilitava-lhe muito a descoberta dos mesmos.

Ele gostava de acariciar a ideia de que, na realidade, esses sinais subtis não eram totalmente involuntários. Que, até certo ponto, Katria desejava alertá-lo e mantê-lo afastado da calamidade. Mas na sua profissão, confiar em tais premissas era tão absurdo quanto imprudente.

Quando abandonou o seu lado profissional e parou de perguntar sobre os interiores e exteriores de Requim — o nome da antiga cidade —, para se interessar pelas origens de Katria e a sua ascensão para se tornar uma guardiã, descobriu um lado inesperado nela. O ressentimento inicial logo deu lugar a uma atitude aberta, apaixonada e vitalista — se tal nome pode ser atribuído a um fantasma — que deslumbrou completamente o buscador.

Tagarela, Katria relatou as suas experiências na capital do império a um ritmo assombroso. Os tempos podiam mudar. Também os nomes das cidades, dos reis e dos deuses, mas se algo nunca mudava, eram os homens e os seus costumes. Nada sobre o império e o seu povo despertou o interesse de Rael, exceto aquelas anedotas pessoais que, alegremente, ela lhe contou.

Assim como tudo o que ela também se calou; embora Rael sabia ler nas entrelinhas.

Contudo, a curiosidade venceu.

Enquanto Katria contava os acontecimentos de uma emocionante caça a alguns bandidos pouco depois de ter sido recrutada, Rael permitiu que a sua língua assumisse o controle.

— Mas há algo que eu não entendo — disse ele, quase descuidadamente. — Falas-me da azáfama de Requim, das suas pessoas, mercados e escolas, e destes túneis subterrâneos cavados para armazenamento e protecção. Mas não vejo despensas cheias de cereais arruinados ou carrinhos abandonados em lado nenhum! Está vazio! Exceto pelo nosso amigo nórdico espetado, não há sequer corpos! Se houve luta, uma guerra, onde estão os mortos, de amigos ou inimigos? Não há mais nada, e não entendo como é possível. Porque lá fora, na superfície, não encontrei o menor vestígio da esplêndida capital imperial da que te gabas. O que foi que ocorreu aqui, Katria? O que foi que realmente aconteceu com Requim?

Rael talvez insistiu com mais veemência do que ele pretendia. E, nesta ocasião, ele falhou em apreciar o súbito mutismo do fantasma.

— Vá lá, estás a esconder alguma coisa — continuou, aproximando-se dela. — Alguma coisa que não queres contar-me, certo? O que é? O que segredo terrível está escondido em Requim? O que foi que aconteceu com os habitantes? O que foi que aconteceu contigo?

— Cale-se!

Katria gritou tão intensamente que Rael teve de tapar as orelhas com as mãos e acabou ajoelhado no chão. Quando levantou a cabeça, ainda com um apito agudo perfurando-lhe os ouvidos, já não conseguiu localizar o espírito.

Katria tinha desaparecido.

O saqueador continuou o seu avanço, impelido por desvendar esse mistério.

No entanto, a ausência da sua companheira estranha pareceu-lhe pesada. Que uma aparição tão etérea pudesse deixar tal vazio com a sua partida era tão ridículo que Rael começou a temer pela própria sanidade. Aquele ambiente desamparado também não ajudava em nada.

Na cabeça, uma voz incitava-o a abandonar imediatamente essa loucura. Virar, refazer os passos e esquecer que ele alguma vez pôs os pés naquele lugar maldito. Havia milhares de outros lugares para descobrir e tantos tesouros para resgatar.

O que era que o tornava tão especial? A engenhosidade das suas armadilhas mortais? A ausência de qualquer objecto de valor? Um frio gelado que penetrava nos ossos?

Porque ele estava obcecado com continuar arriscando o pescoço quando o bom senso ditava o contrário? E no seu negócio, ignorar os ditames do bom senso conduzia a uma morte tão agonizante quanto anónima.

Mas para Rael aqueles túneis subterrâneos esquecidos possuíam uma qualidade que os tornava valiosos além do bom senso.

E não se enganava. Ele podia inventar mil desculpas para justificar a loucura que governava as suas decisões, esclarecer o mistério em torno de Requim, encontrar um tesouro tão enorme que justificasse a cidade sendo apagada da superfície da terra com tanto cuidado quanto dos livros de história.

O que foi que ela disse? Quais foram as suas palavras?

Merece a pena?

Sim, aquelas foram. E sim, merecia a pena. Por ela, merecia a pena.

Mesmo que ele não voltasse a vé-la, mesmo que não tivesse nenhum sentido, ele continuaria.

Por Katria.

Soube que tinha chegado ao fim do seu caminho quando o túnel se abriu para uma câmara imensa.

Embora as águas estivessem congeladas, Rael preferiu atravessar a longa ponte que as salvava. Do outro lado, um pórtico suportado por colunas grossas dava acesso a um edifício cujos andares superiores fundiam-se com o teto da caverna. Imaginou que elas subiriam mesmo através deste, talvez até a superfície. Sempre que o fogo e o peso da rocha não tivessem colapsado os seus quartos interiores. Porque a fachada exterior à volta de algumas das janelas estava enegrecida.

Mas o que inevitavelmente atraiu a sua atenção foram os corpos que atapetavam o mosaico de azulejos pálidos, alguns avermelhados debaixo do gelo, que cobriam o chão desde a ponte até o edifício. Havia dezenas deles, e pela distribução particular — aqueles de armadura oferecendo uma barreira na frente do edifício, aqueles que não tinham, espalhados por todo o lado — esclarecia qualquer dúvida sobre o que tinha acontecido lá.

Rael não hesitou em avançar para a única figura que ficava de pé no meio da massacre.

— Não me lembro da última vez que estive aqui — disse Katria enquanto ele se aproximou dela. — Além disso, eu até me tinha esquecido deste lugar.

— Suponho que se na vida tentamos esquecer as memórias que nos atormentam, então um pouco disso deve de acontecer também na morte.

O espírito acenou com a cabeça. Tinha os ombros caídos. Só então ela desviou o olhar do corpo que estava a seus pés.

Naquele instante, Rael entendeu.

— És tu? — perguntou, embora as palavras soassem ocas nos seus ouvidos.

Ainda que ela — o corpo dela — jazia encolhido de lado, quase de barriga para baixo, tanto a forma como o desenho da armadura, as bainhas vazias nas ancas, o curioso capacete, com o arco ainda segurado numa mão e uma faca na outra, ofereciam uma resposta implacável que desdenhava mais interrogações.

— Foi uma revolta — revelou Katria com tom ausente. — Não sei o que a causou, mas estalou enquanto o imperador Hujal supervisionava pessoalmente as contas do tesouro. Pode entrar, se desejar. Cada última moeda, joia e relíquia foi subtraída. E a fabulosa biblioteca ardeu junto ao conhecimento contido nas páginas dos seus inúmeros e valiosos livros.

Ela parou por um momento, esperando que o saqueador satisfizesse a sua curiosidade gananciosa por conta própria. Como ele não se moveu do sítio, continuou.

— Ficámos surpreendidos. Não estávamos preparados para acabar com as vidas daqueles que tínhamos jurado defender. Mas acima de tudo tínhamos de proteger o imperador. Então sacámos das armas e… matámos. Matámos o maior número que pudemos. Rostos familiares no turbilhão da batalha ficaram crispados de raiva e dor. Mas vinham mais e mais. Não conseguimos detê-los. Nem sequer atrasá-los. Eram muitos, muitos…

Enquanto ouvia os detalhes desse trágico desenlace, Rael ajoelhou-se, bem disposto a examinar o corpo deitado.

Na sua agonia final, Katria enrolou-se em torno da flecha que tão certamente — ou talvez fora apenas um tiro de sorte — perfurara o seu coração. A ponta ensanguentada sobressaía das costas dela. Sem pensar duas vezes, Rael partiu as duas pontas da seta. E ele não ia contentar-se com isso.

— O que é que está a fazer! — exclamou Katria, assustada com a visão daquela afronta ao seu descanso eterno. — Pretende roubar-me a pouca dignidade que me resta?

Imune aos seus protestos, Rael virou o corpo e, tão ansioso quanto temeroso, procurou esclarecer o último mistério que lhe faltava resolver naquela aventura. Com as mãos firmes, retirou cuidadosamente o capacete.

Katria era sem dúvida bela, ainda jovem. E nenhuma queixa de sofrimento contraia os seus traços. Seus olhos estavam fechados, a boca ligeiramente aberta, e as suas feições suaves em perfeito repouso. Ela parecia… dormida. Apenas a brancura extrema da sua pele e a falta de um hálito perceptível desmentiam essa sensação.

Também não pensou nisso desta vez antes de se inclinar para beijar os lábios frios e azuis.

Por alguma razão, nesta ocasião o fantasma de Katria não protestou.

Ela sim falou depois, quando Rael se levantou e colocou o corpo dela sobre o ombro.

— O que é que pretende…?

A sua voz, mal um sussurro, soou tremulosa, confusa.

— A tua missão terminou há muito tempo — declarou o caçador de tesouros que, com o corpo às costas, já estava a caminhar para a ponte. — Cumpriste o teu juramento, até o fim. Só ainda não entendeste que não podias ter feito mais do que fizeste.

— E o que é que vai fazer co… migo?

— É hora de descansar. Vou tirar-te daqui.

Durante a viagem de retorno, mais olhares do que palavras foram trocados.

Convém não esquecer que, para eles, essa caminhada de regresso não era mais do que um adeus adiado.

Enquanto Rael carregava o peso de ambos, Katria — o fantasma dela — caminhava um par de passos atrás do buscador, agindo como escolta funerária. Ela também atuava como uma guia disposta, pois ao longo de todo o caminho foi apontando escrupulosamente cada armadilha, mola e até mesmo irregularidade no terreno que pudesse dificultar o progresso do jovem e experiente aventureiro.

Embora não estivesse na natureza de Rael deixar a sua vida nas mãos de outros, nessas circunstâncias singulares ele se permitiu relaxar, até certo ponto, e concentrar os seus esforços em avançar um pé após o outro.

Passaram pelo nórdico espetado e, perto da saída para a superfície, Katria exortou-o a parar.

— Não vou poder acompanhá-lo além deste ponto — ela advertiu. Para confirmar isto, a sua forma etérea estava a desvanecer-se. — Vai ter de continuar sozinho.

— Os nossos caminhos se separam — disse Rael, numa tentativa vã de disfarçar a angústia.

— Vai cumprir a sua promessa, não vai? Em relação a…

— Assim que chegar à superfície — confirmou ele.

— Seja. — Katria apreciou a firmeza da resposta. — Mas antes de ir, quero perguntar-lhe uma última coisa.

— Ouço-te.

— Ao redor do meu pescoço, vai encontrar um pingente. É muito valioso para mim. Desejo que o guarde.

A Rael ficou em silêncio. Ele não sabia o que dizer.

— Não argumentava que encontrar um tesouro merecia a pena? — continuou Katria com uma presença de espírito que estava longe de sentir. — Vai achá-lo humilde, apenas uma bagatela. A memória de alguém que morrera há muito tempo, mas que, por um momento, lhe fez lembrar do que significava viver. Que esta seja a sua recompensa. Que, a sua aventura, mereça a pena.

— Adeus, Katria.

— Adeus, Rael…

Assim que escapou do gelo e abraçou a calidez da superfície, Rael preparou a pira e depositou o corpo da jovem mulher sobre a pilha de madeira.

Antes de acercar a chama da tocha, ele olhou para o céu e entoou:

— Deuses, eu devolvo-vos Katria de Requim, que morrera na honra do seu juramento. Tenho a certeza que sentiram a falta dela todo este tempo.

Ele gostaria de ter visto uma figura etérea levantar-se do fogo para lhe dedicar um sorriso antes de desaparecer em busca do seu destino. Mas não foi isso que aconteceu.

Apreciou, no entanto, uma voz familiar acariciar os seus ouvidos com uma simples palavra: obrigada.

Já vos disse! Não é uma boa história? E quem pensar que é triste ainda sabe pouco da vida.

Sim, fiquei com o pingente — é este daqui —. E também com as botas dela, bem costuradas, não como as que se fazem agora.

Afinal de contas, para onde ela ia, para que ia precisar delas?

Sinopse

Alguma vez vos contei que estive apaixonado? E que ela morreu…? Em “Que mereça a pena”, um caçador de tesouros fala-nos das suas aventuras. Escrito por FJ Sanz, autor de ficção.


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